Livro a livro22/09/2012 | 05h53

'O Retrato' mostra os impasses vividos pelos descendentes dos fundadores do clã Terra Cambará

Livro não repete a estrutura dos outros volumes

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'O Retrato' mostra os impasses vividos pelos descendentes dos fundadores do clã Terra Cambará Dulce Helfer/Agencia RBS
A infância e a família de Erico (em pé, junto ao tio materno Tancredo Lopes) em Cruz Alta forneceram a matéria-prima para “O Tempo e o Vento”. O próprio Erico teria em Floriano, o filho escritor de Rodrigo Terra Cambará, uma espécie de alter ego Foto: Dulce Helfer / Agencia RBS
Carlos André Moreira

carlos.moreira@zerohora.com.br

Há uma simetria intencional entre o primeiro e o terceiro volumes da trilogia O Tempo e o Vento: uma história estabelecida no presente com retornos ao passado _ da família no caso de O Continente, de um homem, Rodrigo Terra Cambará, em O Arquipélago. Essa estrutura não se repete em O Retrato, o mais díspar dos volumes. Ao enfocar um período mais curto e um único personagem central, serve como "ponte" metafórica entre o sólido "continente" e o disperso "arquipélago".

>>> Livro a livro: O Arquipélago

O foco da ação é a figura de Rodrigo Terra Cambará, inspirado, embora devidamente "despistado", como o autor definia, em Sebastião Verissimo, pai de Erico, homem expansivo e de paixões sensuais. Rodrigo, o do livro, é um homem com a beleza física e a ambição que Sebastião não tinha. É filho de Licurgo, neto de Bolívar, bisneto do Capitão de mesmo nome. Ana Terra, para ele, é uma vaga noção de antepassado _ e as origens obscuras da família, surgida de raptos, estupros e trocas de identidade no século 18, se perderam. Um idealista de visão ambiciosa, Rodrigo volta à cidade natal para tentar encaminhar Santa Fé nos trilhos do século 20 que recém se inicia, representando uma renovação dos métodos caudilhescos empregados pelo adversário da família Cambará no período, o intendente Titi Trindade.

Assista ao webdocumentário sobre o cinquentenário da obra:

Para delinear Rodrigo, Erico o confronta com os acontecimentos políticos de seu tempo, por um lado, e com a pobreza material e social do Estado, por outro. Engajado na campanha em favor do candidato civil Ruy Barbosa, Rodrigo desaprova com fúria a truculência de seus adversários, mas, sem perceber, é bastante indulgente em justificar os abusos que seu ímpeto de macho patriarca impõe a empregadas da estância ou mesmo a uma jovem pobre de quem foi padrinho de casamento.

O Retrato do título refere-se a uma imagem do jovem e voluntarioso Rodrigo retratado pelo artista espanhol residente em Santa Fé Pepe García. Ao tomar como inspiração o motivo e o nome de O Retrato de Dorian Gray, romance de Oscar Wilde, Erico altera drasticamente o enquadramento do ciclo O Tempo e o Vento: saem os grandes planos, entra o zoom cinematográfico sobre a vida e a psique de Rodrigo, um homem que, cego a si próprio, não vê o quanto o tempo o torna diferente da juventude idealista capturada no retrato.

Momentos importantes deste volume:

Cometa de Halley

Um dos pontos centrais da narrativa de O Retrato é a passagem do Cometa de Halley (abaixo), em 1910, à qual Rodrigo Terra Cambará assiste com amigos. O Halley leva o nome do astrônomo Edmond Halley (1656 _ 1742), e foi o primeiro corpo celeste identificado como periódico _ ele passa próximo da Terra em intervalos de 75 anos. Sua última passagem foi em 1986, e sua próxima visita está prevista para 2061.

Perfumes

Rodrigo Terra Cambará recorda a certo ponto as "moças janeleiras" que namorou em Porto Alegre, e que se perfumavam com Corylopsis do Japão e Floramye (acima). As fragrâncias produzidas pela firma L.T. Piver, uma das mais tradicionais casas francesas de perfumes, eram vendidas na Capital.

Pinheiro Machado

Para apaziguar as duas facções do Partido Republicano, o senador José Gomes Pinheiro Machado (acima) faz uma visita a Santa Fé, que inclui a deferência de uma passagem pelo sobrado dos Cambará. Pinheiro Machado (1851 _ 1915) foi uma das figuras mais influentes dos primeiros anos da República. Senador e líder do Partido Republicano, lutou contra os revolucionários maragatos em 1983 , foi um mestre na sombra nos governos de Nilo Peçanha (em 1909) e Hermes da Fonseca (de 1910 a 1914). Foi assassinado em 1915 com uma punhalada pelas costas no saguão de um hotel no Rio.

Enrico Caruso

Homem de gostos cosmopolitas, Rodrigo inventaria na bagagem recebida da capital discos com árias de ópera, com especial atenção para as interpretadas por Enrico Caruso (1873 _ 1924, ao lado), aclamado por muitos como o maior intérprete de música operística de todos os tempos. Nascido em Nápoles, começou a carreira na juventude e foi um pioneiro na gravação em discos de cera.

Campanha civilista

Os Cambará, especialmente Rodrigo, desentendem-se com o caudilho de Santa Fé. A família apoia a candidatura de Rui Barbosa (E) à Presidência da República em 1910. Barbosa concorreu, com Albuquerque Lins como vice, contra Hermes da Fonseca (1855 _ 1923), candidato do presidente Nilo Peçanha.

Chantecler

Especialmente no primeiro volume de O Retrato, Erico relata o fascínio do personagem Rodrigo por Chantecler, peça de Edmond Rostand (1868 _ 1918). Rostand levou sete anos para escrever a obra, que estreou em fevereiro de 1910 no Théâtre de la Porte Saint-Martin, com todo o elenco fantasiado de animais de fazenda.

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