A sombra de um crime10/08/2012 | 18h41

Estreia neste sábado no Theatro São Pedro musical inspirado no célebre mistério da Rua do Arvoredo

Relembre e conheça outras versões para a história do suposto açougueiro

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Estreia neste sábado no Theatro São Pedro musical inspirado no célebre mistério da Rua do Arvoredo Jean Schwarz/Agencia RBS
O espetáculo O Linguiceiro da Rua do Arvoredo tem apresentações no Theatro São Pedro Foto: Jean Schwarz / Agencia RBS
Fábio Prikladnicki

fabio.pri@zerohora.com.br

Ele está de volta. Ou talvez nunca tenha ido embora. Um dos personagens mais famigerados do imaginário porto-alegrense desde o século 19, o sujeito que supostamente transformava carne humana em embutidos ataca no espetáculo musical O Linguiceiro da Rua do Arvoredo, que estreia neste fim de semana no Theatro São Pedro, na Capital, com apresentações nestes sábado e domingo.

Não é a primeira vez que a história aparece nos palcos gaúchos. Em 1999, o diretor Camilo de Lélis montou a ópera pop Os Crimes da Rua do Arvoredo, com texto do dramaturgo Hercules Grecco e música de Marcelo Delacroix. Diferentemente de versões que aparecem em livros e filmes (veja abaixo), o novo espetáculo sobre o assunto não abre mão dos fatos para privilegiar a ficção. A dúvida permanece em cena o tempo todo: existiu, de fato, o tal linguiceiro?

– Misturamos duas propostas: focamos mais nas lacunas que a história tem e mostramos o processo de criação do espetáculo, com depoimentos dos atores. O fazer da linguiça seria o nosso fazer cênico – explica o diretor Daniel Colin, autor do texto em parceria com Felipe Vieira de Galisteo.

Conhecido por seu trabalho com o grupo Teatro Sarcáustico, Colin realiza sua segunda direção de teatro adulto paralelamente ao grupo (que deve estrear ainda este ano um espetáculo infantil com direção e texto de Rossendo Rodrigues):

– Características do Sarcáustico, como o humor afiado, poderão ser reconhecidas no Linguiceiro.

Em uma atmosfera que busca referência no expressionismo, com uso de sombras, o enredo é protagonizado por José Ramos (Leandro Lefa) e Catarina Palse (Ursula Collischonn), autores dos crimes, e Carlos Claussner (Denis Gosch), dono de um açougue. No entanto, são principalmente os demais habitantes da cidade que tomam a palavra para contar a história. Com inspiração no rock gaúcho, a trilha sonora de Bruno Westerman e Lauro Pecktor é cantada ao vivo por um coro de sete atores sobre bases gravadas. O musical integra um projeto que vai contar com um curta-metragem ficcional, em início de captação de verba, com o mesmo elenco e direção de Voltaire Danckwardt. Também está nos planos a realização de um documentário. Carol Zimmer, idealizadora do projeto e diretora de produção da peça, afirma:

– É uma história muito viva no imaginário da cidade e também uma metáfora do que vivemos hoje. Temos a sensação de que estamos matando e comendo uns aos outros para obter mais poder, status.

Descobertos em 1864, os assassinatos da Rua do Arvoredo (atual Fernando Machado), no Centro da Capital, estão documentados historicamente. Mas a parte em que os corpos teriam sido transformados em linguiças vendidas à população é controversa. Autor de dois livros sobre o tema (leia abaixo), o historiador e professor da Unisinos Cláudio Pereira Elmir localiza a gênese desta mitificação cerca de 30 anos após os crimes. Segundo ele, "não temos e não teremos acesso pleno" aos fatos originais:

– O que interessa ao grande público não é o que "aconteceu exatamente", mas aquilo que dos acontecimentos resultou em termos de ficcionalização. O que importa, nesse caso, é a lógica segundo a qual deixamos de suspeitar dos elementos insólitos para fazer de conta que neles acreditamos. Suspender a descrença e embarcar em uma história absurda é o que parece mover este reiterado interesse nessa história.

Versões da história

Em livros

O Maior Crime da Terra: o Açougue Humano da Rua do Arvoredo (Sulina, 1996) - Livro da última fase da carreira do historiador Décio Freitas, que reconstitui os crimes em tom de romance, baseado em pesquisas no Arquivo Público do Estado e em reportagens publicadas à época no Exterior.

Cães da Província (L&PM, 1998) - Neste romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, o episódio do linguiceiro é retomado colateralmente ao declínio mental do protagonista, o dramaturgo Joaquim José de Campos Leães, o Qorpo Santo. Qorpo Santo sugere a um amigo, abandonado pela mulher, que identifique uma das vítimas do açougueiro como de sua esposa, para evitar um escândalo.

> A História Devorada: No Rastro dos Crimes da Rua do Arvoredo (Escritos, 2004) - Neste estudo, o historiador Cláudio Pereira Elmir faz um levantamento de como os crimes foram sendo transformados gradativamente em um "fato histórico" de repercussão maior do que na época. Elmir também contesta o livro de Décio, apontando incongruências e criticando o fato de Décio amparar-se em algumas fontes conhecidas apenas por ele próprio. Em 2010, Elmir voltou ao tema em livro escrito com Paulo Roberto Staudt Moreira. Odiosos Homicídios - O Processo 5616 e os Crimes da Rua do Arvoredo (Unisinos/Oikos) foi motivado pela descoberta de um novo processo-crime no Arquivo Nacional, no Rio, em 2006, documento reproduzido na íntegra no volume.

> Canibais: Paixão e Morte na Rua do Arvoredo (L&PM, 2005) - David Coimbra recupera o crime em tom de folhetim histórico, misturando personagens fictícios e reais. Walter, sapateiro de origem alemã, apaixona-se pela bela Catarina, mulher do sombrio açougueiro José Ramos, e se vê envolvido nas tramas de assassinato do perverso casal.

No cinema e na TV

> O Caso do Linguiceiro - Reconstituição dramática do mórbido episódio, o filme com direção de Flávia Seligman e Francisco Ribeiro foi exibido no Festival de Gramado de 1995. No elenco, entre outros, Careca da Silva, Lisa Becker e Zé Victor Castiel.

> Os Crimes da Rua do Arvoredo - Especial exibido na RBS TV, em 2004, dentro do projeto Histórias Extraordinárias. Com direção de Rogério Brasil Ferrari, a produção reconstitui o caso tendo o ator Júlio Andrade como guia de uma investigação documental que combina depoimentos de historiadores e dramatização a cargo de, entre outros, Giovanna Zóttis e Nelson Diniz.

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