Mestre16/07/2012 | 09h49

Leia depoimento do ilustrador de ZH, Fernando Gonda, homenageando o mestre Quino

"Na minha infância, ainda no Uruguai, tive minha própria Mafalda de carne e osso: Mariella, minha irmã maior"

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Fernando Gonda*

Patrícia Rocha sentou na cadeira ao meu lado e foi logo ao assunto: "Gonda, sei que és admirador do Quino. Somos dois. Poderias fazer uma caricatura dele?". E eu: "Claaaro!" (assim mesmo, arrastando no a). Ela sorriu e acrescentou: "E escrever um texto sobre ele? Tá fazendo 80 anos". E eu: Siiim (escorregando no i, já assustado). E rápido como veio, ela levantou, agradeceu e saiu. E agora? Fazer caricatura e escrever sobre "ELE"?

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Me senti um cartum vivo. Um tímido extremo escrevendo sobre outro tímido, seu ídolo (Quino acharia isso patético). Eu, que falo umas cinco palavras por dia, com um "claro" e um "sim", entrava na maior encrenca dos meus 22 anos de ZH. Nem caricatura faço. Pânico. Mas, como uruguaio não desiste até o apito final, escrevi.

Adoro as tiras da Mafalda e os cartuns, mas o que sei sobre Quino? Entrevistas contam o luto precoce (perdeu a mãe aos 13 e o pai aos 16) e o início difícil e pobre antes do sucesso. Lembro dele dizendo que, no mundo de hoje, não há mais espaço para o silêncio e o pensamento. Que onde quer que a gente vá, seja um consultório, seja um bar, há uma TV ligada nos bombardeando com ideias mastigadas. Que não deveria haver guias nos museus, já que a graça é ver as obras, e cada um que tenha sua interpretação. Ou seja, um neurótico angustiado com o mundo. Somos dois. Muitos jornalistas falam da dificuldade em tirar palavras dele. Mas pra que tirar? O trabalho fala por ele. A neurose dele com as palavras é um pouco minha também. Por isso me identifico. Das reportagens que li e vi, fiquei muito mais com impressões do que informações.

Enfim, sei pouco sobre Quino. Mas muito sobre o trabalho. Ele inspirou definitivamente o desenho de cartunistas da minha geração. Sei de cor todas as tiras da Mafalda, que foi, durante 10 anos, uma voz política libertária na América do Sul e hoje é uma personagem universal. Enquanto meus amigos tinham quadros do Capitão América no quarto, eu tinha uma placa gigante de isopor com um tira colada, que eu ampliei a lápis e depois passei nanquim com todo o cuidado, imitando ao máximo as proporções e o traço original. Era aquela em que a Mafalda está sobre um pedestal formado por um pufe e sua cadeirinha, erguendo uma lâmpada e com um livro na outra mão, quando chega o Miguelito perguntando: "Quem você está fazendo de conta que é?". E ela: "A liberdade iluminando o mundo com sua luz fulgurante!...". Olha pra lâmpada e diz, resignada: "...de 15 watts" (veja acima).

Na minha infância, ainda no Uruguai, tive minha própria Mafalda de carne e osso: Mariella, minha irmã maior, tagarela e contestadora como a personagem e que também deixava meus pais sem palavras. Eu era um Guille contemplativo. Acho que todas as famílias naquela época (e que anos aqueles!) tinham algum dos personagens de Quino em casa. Em 1973, ele parou de fazer a tira. Não era mais feliz fazendo aquilo dia após dia. Nunca mais vai fazer. "Nunca" é uma palavra forte, mas vinda dele, eu, ateu, acredito. Por que nunca mais? Pra mim, porque é uma obra-prima. Seria como se Michelangelo continuasse a tirar mármore de seu David. Não há o que tirar nem botar. Está pronta. Olhe e adore. Já faz parte da história. Mafalda não é mais dele. É nossa. Apesar dos royalties serem do Quino.

Sem estar amarrado a personagens fixos, os cartuns são agora seu paraíso de liberdade. Sem palavras nem explicações, o desenho dá o recado. No traço limpo de Quino, não há uma única hachura que não tenha algo a contar. Quino não tem (para mim) cartum ruim. Quem não viu não sabe o que é cartum. Neles, é onde Quino mais se expõe, com a mesma felicidade com a qual, ainda criança, se deitou sobre uma grande mesa de madeira de álamo que a mãe recém comprara e a decorou com milhares de minidesenhos, descobrindo todo o poder que podia tirar da ponta de um lápis.

Sinto muita saudade da Mafalda, mas daí revejo meus livrinhos ou visito minha mana Mari. Deixa o Quino quieto. Que los cumpla feliz.

* Ilustrador de Zero Hora

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