Homem de imprensa há quase cinco décadas, Roberto Muylaert lançou-se à ficção em 2007 com uma história sobre a II Guerra: Alarm!, romance sobre um dos submarinos que percorreram a costa brasileira afundando navios em 1942 – o que definiu a entrada do Brasil no conflito, ao lado dos aliados. Agora, Muylaert volta ao mais dramático conflito do século 20 com a grande reportagem 1943 – Roosevelt e Vargas em Natal, que narra o encontro entre o ditador brasileiro e o presidente norte-americano na base de Parnamirim, na capital do Rio Grande do Norte, instalação que o Brasil havia franqueado aos Estados Unidos como escala dos aviões aliados. Ele concedeu a seguinte entrevista por e-mail.
Zero Hora – Seu livro é intitulado 1943 – numa referência ao ano em que Getúlio Vargas e Franklin Roosevelt se encontraram em Natal, mas sua prosa é constituída como um mosaico, indo e voltando no tempo, em recuos espiralados até casos e personagens antecedentes ao evento central do livro. Por que optou por essa estrutura? Foi uma estratégia de suspense?
Roberto Muylaert – Meu outro livro sobre a II Guerra Mundial no Brasil é um romance histórico que conta a história de um submarino, o U-199, que esteve na costa do Brasil afundando nossos navios. Todas as referências históricas são reais, mas eu criei um marinheiro de Santa Catarina, filho de alemães, o Werner, que tripulava o U-199. Nesse livro, utilizei o tipo de narrativa em mosaico, para criar certo suspense. No caso do 1943, não houve tal intenção. Os episódios que pegaram carona no encontro entre os presidentes tinham a ver indiretamente com a história, e eu aproveitei o fato de que o assunto diretamente ligado ao encontro era de certa forma limitado na quantidade de informações pesquisadas. Por outro lado, um caso como o da nora de Getúlio talvez não desse um livro, mas me parece um acontecimento interessante para o 1943. O redator da Folha considerou-o um adendo que não tem a ver diretamente com o tema principal, mas acabou virando um bônus para o leitor.
ZH – O senhor relata em seu livro que o motivo pelo qual escreveu 1943 foi a curiosidade pela foto em que Getúlio e Roosevelt estão em um jipe na visita à base aérea de Natal. O senhor se recorda quando e em que circunstâncias a viu pela primeira vez?
Muylaert – Vi essa foto muitas vezes, não me lembro quando foi a primeira. Talvez lendo aquelas edições da revista Life, com fotos sempre impressionantes da guerra. Aliás, muitas das fotos do livro são originais daquela revista. A iniciativa de escrever o livro tem a ver também com o Alarm!, que me permitiu reunir uma quantidade de informações sobre a guerra que me animou a voltar ao tema.
ZH – O livro ocupou quanto tempo entre redação e pesquisa? Quais foram suas principais fontes para a reconstrução dos fatos daquele ano e seus antecedentes?
Muylaert – Cerca de um ano e meio, pesquisando as fontes citadas no livro, além de três viagens a Natal, onde vive o maior pesquisador e conhecedor da cidade ao tempo da guerra, embora não contemporâneo: Fred Nicolau.
ZH – No livro, o senhor alterna os pontos de vista entre o quadro maior da guerra e as delicadas relações internacionais que o Brasil de Getúlio tentava estabelecer com as vicissitudes pessoais da família do presidente, como a morte de um de seus filhos, Getulinho, ou o fato de a nora do presidente ser uma alemã nata. Foi sua intenção esboçar um contraponto entre os conflitos do estadista e do pai de família Getúlio?
Muylaert – A maior coincidência que o livro encerra é o fato de que, ao largar Getulinho vítima da pólio (contraída nos Estados Unidos) em São Paulo, o presidente do Brasil iria se encontrar com Franklin Roosevelt, também vítima da mesma doença. O contraponto surgiu naturalmente.
ZH – Como o senhor mesmo aponta no livro, a participação do Brasil na II Guerra costuma ser pouco lembrada e reconhecida pelos historiadores internacionais a se ocuparem do conflito. A que o senhor atribui essa negligência? O fato de o Brasil ter enviado uma divisão apenas pode explicar esse fato?
Muylaert – A tendência dos americanos é a de puxar para si todas as glórias da vitória no conflito. Sem a indústria americana, os aliados não teriam vencido o Eixo, é verdade. Mas não se pode esquecer que os russos tiveram 20 milhões de mortos na guerra, e os americanos 350 mil. Se essa disparidade de baixas a favor dos russos – que de fato ganharam a guerra – nem sempre é destacada, imagine a presença de um contingente pequeno, de um país sul-americano, mesmo sendo a única nação do subcontinente a enviar soldados.
ZH – O senhor também reconstitui o cotidiano da base de Parnamirim e o que ela mudou no dia a dia de Natal. A cidade foi transformada pela presença da base?
Muylaert – Por muitos anos ficaram os resquícios da temporada americana, visíveis até pela presença de crianças de olhos azuis nascidas após a guerra. Hoje a maior influência ainda é a existência da base aérea da FAB, a maior do Brasil, com todas as instalações deixadas pelos americanos ainda funcionando muito bem.
ZH – Roosevelt e Getúlio acertaram contrapartidas pelo apoio brasileiro que se perderam após a morte de Roosevelt com a guerra ainda em andamento. O sigilo das conversações foi o motivo ou a intenção do sucessor do presidente americano, Harry Truman, de não se comprometer com promessas de seu antecessor?
Muylaert – Na política internacional, como nas relações humanas em geral, a empatia pessoal tem papel de destaque. Foi o que havia entre Roosevelt e Getúlio, dentro do ambiente de tensão e solidariedade criado pela guerra. Com Truman, esses pré-requisitos para um bom entendimento já não existiam. E o presidente americano estava mais preocupado com o julgamento dos nazistas em Nuremberg e com o início da Guerra Fria.













