Nas mãos do público17/05/2012 | 06h02

Músicos independentes como Vitor Ramil recorrem a fãs para viabilizar projetos

Recompensas e possibilidade de aproximação com artistas que admiram mobilizam os fãs

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Músicos independentes como Vitor Ramil recorrem a fãs para viabilizar projetos Arte sobre foto de Eneida Serrano/Divulgação
Quem colaborar com o próximo disco de Vitor Ramil pode ter nome impresso na contracapa do disco Foto: Arte sobre foto de Eneida Serrano / Divulgação

Em lugar de "independência ou morte", "independência e parceria". Esse é o novo brado que os artistas independentes – e seus fãs – já podem soltar por aí.

O cenário musical busca no modelo do crowdfunding o potencial do financiamento coletivo por meio da internet. Além de tornar possível a viabilização de projetos, a ferramenta cria uma relação mais próxima e direta entre fã e criador.

Os artistas gaúchos já vêm apostando no modelo, mas a estratégia ainda não havia sido usada por músicos reconhecidos e com estrada, como o cantor e compositor Vitor Ramil. No segundo semestre, ele pretende lançar seu novo projeto, Foi no Mês que Vem, com a ajuda do público. Para isso, aderiu ao Traga Seu Show (www.tragaseushow.com.br), plataforma de crowdfunding focada na produção musical gaúcha.

Em esquema de contagem regressiva, Ramil tem até 5 de agosto para reunir os R$ 60 mil que busca para o projeto, que inclui songbook com 60 músicas de sua carreira e um álbum duplo com regravações de 30 dessas canções, além de um documentário. Até o começo da tarde de ontem, 127 apoiadores colaboravam com mais de R$ 13 mil. Seguindo a lógica do crowdfunding, os apoiadores ganham contrapartidas proporcionais à cota. Há downloads, acessos a vídeos, camisetas e autógrafos, entre outros mimos.

– Isso é muito empolgante, e só a internet possibilita. É uma experiência nova, que aponta para o futuro. Mas transcende a coisa do dinheiro. O mais motivador é a mobilização das pessoas. O crowdfunding é um modo de o público e o artista se comunicarem diretamente e sem intermediários. O público toma suas decisões – diz Ramil, que está recebendo sugestões de repertório dos fãs.

Sua iniciativa é um sinal de que o modelo do crowdfunding oferece um novo estágio de independência. Depois de lançar três discos por gravadoras, Ramil se apresentou como independente em 1995, com À Beça, e chegou a se beneficiar de editais públicos nos discos seguintes. Hoje, centraliza sua produção no próprio site.

– O crowdfunding é uma consequência de todas essas coisas de colaboração que surgiram com a internet. E o Vitor, em específico, é independente há um bom tempo e sempre esteve muito perto do seu público – analisa o jornalista e crítico de música Juarez Fonseca.

Na música, o financiamento coletivo ainda estimula mudanças de postura, como a necessidade de o artista passar a se envolver com a gestão de carreira.

– Disponibilizar música já está mais fácil. Também está clara a necessidade do músico, além de compor, gravar e fazer o show, também pensar e conduzir sua carreira. Não vejo a questão da independência como uma bandeira, mas como uma postura de quem tem visão de carreira mais do que de resistência a grandes gravadoras – opina o músico Frank Jorge, um dos coordenadores do curso Produtores e Músicos de Rock, da Unisinos.

Pelo conceito colaborativo, os fãs também atestam o poder de escolha. Só na Capital, o público já foi responsável por trazer shows de bandas como Playing for Change e Howler. O mesmo peso da decisão dos fãs se aplica quando o assunto é financiar o disco de seu ídolo.

– O Radiohead lançou In Rainbows (2007) dizendo que o público podia pagar o quanto achasse que valia. Essa coisa solidária é uma realidade e tem funcionado na música. É bom acharmos caminhos para este mundo que muda tão rapidamente – analisa o músico e jornalista Arthur de Faria.

Pré-crowdfunding

Muito antes de se popularizar o termo crowdfunding, o financiamento coletivo já era usado por músicos gaúchos. Nos anos 1980, Nelson Coelho de Castro produziu o disco Juntos (1981) com a venda de bônus: o fã comprava cotas, em esquema de venda antecipada do álbum, com direito a ver seu nome na contracapa do disco.

– O disco estava gravado, mas não tinha como lançar porque a gravadora quebrou. Aí, inventei os bônus. Precisava vender 200 e acabei vendendo uns 300 – conta Castro, que credita o êxito da empreitada também ao clima da época. – A gente estava na ditadura, o que fazia as pessoas se solidarizarem contra o sistema.

Na época, ter um disco era exigência para tocar na rádio e, assim, atrair o interesse do público e das gravadoras. Assim, a iniciativa de Castro inspirou outros artistas, como Nei Lisboa, que lançou seu álbum de estreia, Pra Viajar no Cosmos não Precisa Gasolina (1983), por meio da venda de bônus.

– (O crowdfunding) É muito bom e democrático. Está preenchendo uma lacuna resultante do mercado e suas distorções. Qualquer projeto, em especial de novos artistas que não se habilitem ao perfil de consumo, podem encontrar aí seu espaço – acredita Nei.

Conquistas coletivas


A Apanhador Só bancará disco com ajudas dos fãs (Roberta Sant'Anna/Divulgação)

Com o financiamento coletivo, músicos gaúchos que já viabilizaram shows e projetos começam a pensar mais longe. O horizonte oferecido pelo crowdfunding alimenta um velho desejo: a gravação de um disco.

É com esse objetivo que a Apanhador Só apresenta sua campanha de financiamento do terceiro álbum. No dia 23, a banda fará o lançamento do compacto Paraquedas, em vinil de sete polegadas e que será vendido no site (www.apanhadorso.com). As duas músicas antecipam parte do futuro álbum dos porto-alegrenses. No dia 27, será apresentado um show no Opinião e, até o fim do mês, a campanha para o disco "prometido para o verão de 2013" se concentrará no site da banda e na plataforma escolhida, o Catarse (catarse.me). Antes do crowdfunding, a Apanhador Só teve uma experiência de financiamento com editais públicos. O disco de estreia, de 2010, saiu pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre (Fumproarte).

– É preciso dinheiro para um disco bem gravado. Mas é complicado emplacar no Fumproarte. O crowdfunding faz as pessoas escolherem quem apoiar e com quanto. É democrático – diz o guitarrista Felipe Zancanaro.

Quem tem uma história de sucesso com o crowdfunding é Gisele De Santi. Em junho do ano passado, a cantora conseguiu apoio de 65 pessoas, que contribuíram com R$ 8,7 mil para o show Chama-Me, em Porto Alegre.

– Eu tinha lançado o CD pelo Fumproarte, mas não tinha patrocínio para os shows. Aí, usamos o crowdfunding. Além de levantar a verba, acabamos divulgando bem o trabalho e entendendo melhor o público. Foi uma consultoria de marketing – conta.

Depois, Gisele buscou voos mais altos. Em parceria com o paraense Arthur Nogueira, usou o crowdfunding para colocar em pé um show em abril. Dessa vez, em São Paulo, ao custo de R$ 4,5 mil. Em pouco mais de um ano, Gisele se tornou a primeira artista a ter dois projetos de sucesso no Catarse:

– Pretendo fazer novos projetos, porque dá resultado. O artista sem gravadora também encontra seu público.

Assim como Gisele, a banda Cartel de Cevada ainda não usou crowdfunding para produzir um disco, mas já fez várias ações no esquema colaborativo. A iniciativa mais recente está marcada para o dia 26 e reuniu apoios por meio do site do grupo (www.carteldacevada.blogspot.com.br): será o lançamento da música A Barbada em uma festa fechada na Zona Sul de Porto Alegre.

– A gente tinha uma música nova. Umas 60 pessoas colaboraram na gravação e no lançamento com festa. Nosso próximo trabalho, quem sabe um disco, vai ser nesse sistema – diz o vocalista e guitarrista Igor Assunção.

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