Saindo da gaveta22/05/2012 | 07h05

Confira trechos inéditos de peças de Diones Camargo

Dramaturgo apresenta fragmentos de cinco de seus trabalhos

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Confira trechos inéditos de peças escritas pelo dramaturgo Diones Camargo, entre elas Último Andar, ainda não encenada.

> ANDY/EDIE (2005):

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ANDY WARHOL: O sucesso é só uma sala vazia. Todo dia há milhares de garotas nas portas de algum estúdio tentando uma ponta em algum filme com a esperança de se tornarem celebridades. Elas passam as noites servindo pratos num restaurante qualquer para pagar o aluguel e os dias fazendo testes onde o grande momento é o desabotoar dos botões de suas blusas baratas. Você está em vantagem, Edie. Quero apenas que perceba isso. Estou lhe dando possibilidade de encher este espaço vazio, querida.

EDIE SEGDWICK: Você não entendeu, Andy. Eu só quero ser uma estrela como a maldita Marilyn!"

> TERESA E O AQUÁRIO (2008):

"
OUTRO: O que tu tá fazendo aqui?

ALGUÉM: Vim te explicar porque ainda não parti, como tu vem esperado esse tempo todo. Eu quero estar aqui quando tiver a certeza de que não te amo mais. Quero estar nesta sala, como agora –  hoje ou daqui a mil noites –  e saber pra sempre que tudo o que eu sentia por ti se foi. Que essa névoa que tu afogou dentro de mim se dissipou. Quero ser a imagem congelada do teu desespero quando eu finalmente me virar e partir. Olhar pelo canto do olho, numa esquina qualquer da cidade, e te ver abrir a boca, hesitando entre me pedir pra ficar ou engolir um whisky pesado pra esquecer quem eu fui aqui.

OUTRO: E quem te garante que isso vai acontecer?

ALGUÉM: Um dia. Seja pela minha vontade ou pela tua, porque tudo o que fizemos juntos, fizemos tu e eu, e se tu insiste em me lembrar disso, eu te concedo esta visão que faz tudo parecer mais cruel dessa esquina onde tu já te encontra. Então lembra sempre que aqui começa o nosso final: se não parto agora é porque antes vou te desamar até te perder no primeiro café, como um guarda-chuva largado num dia de sol, sem nenhuma utilidade senão a de ser esquecido pra sempre. (Sai)"

> HOTEL FUCK – NUM DIA QUENTE A MAIONESE PODE TE MATAR (2010):

"JESSE: Eu estava confuso, Audrey... dúvidas, dúvidas e dúvidas. Eu construí a minha vida em cima de hesitações e só agora eu consigo ver que eu não passo de uma possibilidade filosófica presa num corpo disforme.

(...)

AUDREY: Você não é uma possibilidade filosófica, Jesse. Você bem que gostaria, mas não é. Você não passa de uma mente disforme presa num corpo em estado avançado de putrefação. Você está morto. Aliás, você já nasceu morto! E olhando agora pro que sobrou de você, não consigo entender como um dia eu pude ter me apaixonado por algo tão imundo."

> NOVE MENTIRAS SOBRE A VERDADE (2010):

“LARA: (...) Depois de um tempo controlando a lava você começa a perceber que as coisas vão lentamente mudando dentro de você, e ao contrário do que acredita o senso comum, não é tão bom assim. Aos poucos você percebe que o seu olhar vai perdendo o brilho que tinha antes. Então você se satisfaz em simplesmente ir ao supermercado e encher o carrinho de compras e voltar pra casa com um monte de sacolas; em ir ao parque e ver outras pessoas solitárias fingindo serem felizes – exatamente como você faz todos os dias; Assim, dia após dia, você se contenta em ir a jantares pomposos na casa de amigos, em reuniões desanimadas na terraço de ex-colegas da faculdade, em levar os filhos pra escolher um cachorrinho de nome 'Lulu' na petshop, em ir no lançamento de um livro de um amigo que escreveu sobre a vida sexual dos moluscos, em passar a manhã de sábado numa feira de produtos orgânicos e voltar pra casa e preparar uma salada orgânica e achar que isso vai te impedir de ter um câncer enquanto você fuma o seu 23º cigarro do dia, observando pela janela mais uma tarde indo embora enquanto você não está fazendo NADA daquilo que um dia você imaginou que iria fazer... e quando você vê, você está assim, amortecido, vivendo essa vida de faz de conta que é mais devastadora do que a lava que antes corria dentro de você. Uma vida regada a moderadores de apetite, homeopatias, controladores de ansiedade e antidepressivos que te transformam num zumbi devorador de chás da cinco, com toda aquela louça fina que vai se tornando uma parte sebosa de você, como gordura que se acumula embaixo da pia de mármore da cozinha. E as rugas tomando conta do seu rosto, como se fossem larvas numa plantação, cabelos brancos se multiplicando como uma nevasca silenciosa que cai sobre sua cabeça sem que você perceba, e o olhar,  o olhar cada vez mais distante e vazio, até que os seus joelhos um dia se dobram e você não faz nada pra impedir isso. Você se deita porque está cansado de ter passado tanto tempo se sentindo cansado e então adormece. E no fim não haverá nada pra ser escrito no seu epitáfio, exceto talvez, uma única frase: Fulano, que controlou a lava dentro de si por tanto tempo que acabou esquecendo como era realmente viver. 'Toma cuidado, Lara, tem muita lava aí dentro.' Hoje eu sei que Isso não tem nada a ver com equilíbrio. Mas naquela época era diferente."

> ÚLTIMO ANDAR (2006-2012):

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HOMEM 1: As pessoas dizem qualquer coisa pra não serem esquecidas. Ninguém aceita que um dia será apenas cinzas flutuando sobre um mar de acontecimentos alheios.

HOMEM 0: Eu sempre achei que a coisa mais importante era a capacidade de alguns em desaparecer sem deixar vestígios.

HOMEM 1: Talvez. Mas isso requer muita coragem.

HOMEM 0: É por isso que ainda estamos aqui... não é mesmo?"

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