Neste sábado, o naufrágio mais famoso da história completa cem anos. Pegando carona na efeméride, Titanic (1997) está de volta aos cinemas – agora em 3D. Mas não espere que o gelo do iceberg caia no seu colo ou que a proa do navio saia da tela – os efeitos acrescentados agora não conseguem dar ao filme a tridimensionalidade alardeada.
Sim, a música cantada por Céline Dion segue insuportável, e as sobrancelhas de Billy Zane ficam ainda mais delineadas em 3D. Mas o que importa é que, 15 anos após estrear, o filme dirigido por James Cameron continua como o célebre transatlântico: longo, grandioso, pretensioso e inesquecível.
A superprodução do mesmo realizador de Avatar (2009) custou na época cerca de US$ 200 milhões, o longa mais caro até então já rodado, e bateu o recorde histórico de arrecadação, com faturamento de US$ 1,8 bilhão – superado depois apenas por Avatar, com US$ 2,7 bilhão. Recordista de Oscar – com 11 estatuetas, ao lado de Ben-Hur e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei –, Titanic levou os prêmios de melhor filme e diretor. O retorno em 3D ainda não fez estardalhaço – ficou em terceiro lugar no primeiro final de semana nos EUA, com US$ 17,3 milhões.
Rodado em convencionais duas dimensões, Titanic levou sete anos para ser convertido para 3D. O resultado, como de praxe, é pífio: a gambiarra tecnológica não provoca o mesmo efeito ótico que as cenas rodadas originalmente em terceira dimensão, destacando-se em poucas sequências durante as 3h14min de projeção – sem esquecer que esse tipo de transformação costuma causar uma perda de luminosidade na imagem. No caso de Titanic, porém, essa recauchutagem oportunista, cujo objetivo é cobrar ingressos mais caros, não afeta a qualidade e a conveniência desse relançamento: uma obra maiúscula como essa merece ser (re)vista na tela grande.
Desde que o RMS Titanic bateu em um iceberg e foi a pique em sua viagem inaugural, na madrugada de 14 para 15 de abril de 1912, o fracasso desse prodígio da engenharia náutica fascina gerações – prato cheio para metáforas e interpretações que vão do colapso do Império Britânico à denúncia da arrogância humana, da debacle da Belle Époque às vésperas da I Guerra ao iminente desmoronamento da sociedade burguesa de classes estratificadas.
O acerto de Titanic, o filme, é abarcar todas as leituras correntes desse episódio histórico traumático, utilizando-as como pano de fundo para um comovente triângulo amoroso fictício que se desenrola a bordo do navio.
Durante as primeiras duas horas de Titanic, desenha-se o romance entre o pé-rapado Jack Dawson (Leonardo DiCaprio), passageiro da terceira classe, e a pobre menina rica Rose DeWitt Bukater (Kate Winslet), noiva a contragosto do prepotente milionário Caledon Hockley (Billy Zane). O clímax dura mais de uma hora, com os personagens – fictícios e reais – lutando para sobreviver enquanto o "inafundável" transatlântico submerge nas gélidas águas do norte do Atlântico.
Para quem assiste a Titanic pela primeira vez, a trama de amor impossível escrita por Cameron deve encantar ao encenar uma espécie de Romeu e Julieta em alto-mar, em que os amantes enfrentam obstáculos, digamos, titânicos. Já quem revisita o filme vai se surpreender não apenas com a qualidade e a eficiência dos efeitos especiais – uma produção pode envelhecer muito mal nesse aspecto em 15 anos –, mas também em como a história não perdeu seu vigor dramático. Mais: a paixão entre Jack e Rose mantém o mesmo frescor juvenil e continua envolvendo o público com seu ímpeto.
Em 2D ou 3D, em 1997 ou 2012 – pouco importa: James Cameron fez cinemão clássico do bom em Titanic, que permanece atual em qualquer época ou dimensão.













