Obra-prima do regionalismo brasileiro, livro fundamental da identidade gaúcha, o livro Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto (1865 - 1916), completa cem anos de publicação em 2012. Entre as ações comemorativas estão a reedição, pela L&PM, de Contos Gauchescos & Lendas do Sul, com 1,5 mil notas comentadas do organizador Luís Augusto Fischer, e também o lançamento de dois livros inéditos do autor.
São eles Artinha de Leitura, uma cartilha de alfabetização, e Terra Gaúcha, homônimo de um volume sobre história do Rio Grande do Sul que Simões deixou pronto e que foi publicado postumamente em 1955. Este Terra Gaúcha que permanece inédito até hoje, tanto quanto a sua Artinha (palavra que designa um manual de rudimentos de determinada matéria didática), é voltado ao público escolar e revela um autor em meio a uma guinada que seria definitiva para a sua produção intelectual.
– Ele escreveu os dois livros na primeira década do século 20 – diz Fischer, que também é o organizador da publicação de ambos. – Antes, ele escrevia muito para teatro. É nesse período que passa a investir mais na linguagem literária e nos temas regionais.
Sabia-se da existência de Artinha de Leitura e Terra Gaúcha há mais tempo, mas o primeiro só foi de fato descoberto em 2008, quando a professora Helga Piccolo folheava um velho livro comprado em um sebo. Pequena caderneta escrita a mão em forma de cartilha, a Artinha simplesmente caiu do meio de suas páginas. Foi doada à Universidade Federal de Pelotas (UFPel), cidade em que Simões nasceu e viveu, e agora está cedido em comodato ao Instituto Simões Lopes Neto.
Terra Gaúcha, por sua vez, veio a conhecimento público por meio da biografia do autor escrita por Carlos Francisco Sica Diniz e publicada em 2003. Sica Diniz viu o material ao visitar o jurista pelotense Mozart Russomano, que havia herdado o exemplar da viúva
de Simões. Por alguma razão, que pode ser uma avaliação precipitada de seu conteúdo por parte de Russomano e alguma bronca pessoal por parte da viúva – ela atribuía à atividade literária parte da culpa pela decadência social do casal, lembra Fischer –, decidiram mantê-lo em segredo.
Adquirido pelo bibliófilo Fausto Domingues após a morte do jurista, o livro enfim será editado. Em dois volumes de aproximadamente 70 páginas, exatamente como foram concebidos por Simões Lopes Neto. O projeto já está aprovado para captar patrocínio por meio da Lei Rouanet, que permite renúncia do Imposto de Renda.
Fischer relata, antecipando o conteúdo do material que será publicado, que Terra é um compêndio de histórias sobre a vida no campo elaboradas para se ler em aula a partir
do modelo de Cuore, clássico de formação do italiano Edmondo de Amicis que acaba de ser reeditado pela Cosac Naify com o título de Coração. É dividido por meses, para ser lido ao longo de todo o ano letivo.
– E tem – observa – uma personagem-chave que é uma preta velha contadora de lendas, a siá Mariana, que relata para meninos a história do Negrinho do Pastoreio. Ou seja, Simões Lopes Neto antecipa em 20 anos o que Monteiro Lobato faria com a Tia Anastácia em Sítio do Pica-Pau Amarelo. Não é pouca coisa.













