Uma marca de Dennis Lehane é seu olhar realista e compassivo para a classe operária (enquanto os empresários e os ricos, em geral, são vistos como predadores inescrupulosos). O escritor americano tem experiência no assunto.
Egresso de um bairro de trabalhadores braçais em Boston, passou por vários empregos para sustentar seu início de carreira. Foi garçom e vendedor em livraria, ajudou crianças abusadas e doentes mentais, carregou caminhões e estacionou carros.
Em estacionamentos, conheceu um monte de brasileiros e aprendeu a xingar em português, como Lehane conta nesta entrevista sobre o romance Estrada Escura, concedida por e-mail a ZH:
Zero Hora — Fazia mais de 10 anos que o senhor não escrevia sobre a dupla Patrick Kenzie e Angie Gennaro. O que o levou a voltar aos personagens? E o que o fez reabrir o caso Amanda McCready?
Dennis Lehane — Eles voltaram a conversar comigo. Não sei de que outra maneira descrever isso. Durante 10 anos, eles ficaram calados. E, de repente, começaram a tagarelar outra vez. Para mim, Patrick sempre foi uma maneira de olhar para os fatos mais imediatos, e acho que uma parte de mim estava curiosa por investigar os efeitos da crise econômica mundial entre a classe trabalhadora. Quanto a Amanda, sempre quis saber o que havia acontecido com ela.
ZH — O senhor é pai de uma filha pequena. Em Estrada Escura, Patrick e Angie têm uma filha de quatro anos. A paternidade influenciou bastante o livro?
Lehane — Tornar-me pai dividiu minha vida em duas partes bem distintas: Antes de Ser Pai e Depois de Ser Pai. O que muda depois é que qualquer ilusão que você tivesse quanto a sua independência desaparece. E eu pensava que poderia ser interessante investigar isso por meio de dois personagens — Angie e Patrick — que sempre foram caracterizados por sua falta de dependência.
ZH — Seus livros transcendem o gênero policial. Para além de uma trama de suspense, abordam temas sociais, econômicos, políticos, culturais, pintando um retrato da sociedade americana contemporânea. O senhor inclusive já disse, em uma entrevista ao jornal britânico The Independent: “Posso fazer muito pela sociedade. Esse é o caminho que tomou o romance realista: virou ficção policial”. Qual é o seu papel como escritor? Ou melhor dizendo, que papel os escritores devem desempenhar?
Lehane — Escritores deveriam escrever histórias interessantes. Que eu saiba, essa é a única lei inviolável do processo. A partir disso, pode-se esperar que escrevam textos com profundidade e clareza, sem simplificá-los demais. Se isso levar alguém a questionar o senso comum, melhor ainda.
ZH — Um outro aspecto marcante de seus livros são os dilemas éticos e morais. O senhor poderia falar um pouco sobre seu processo criativo? O senhor pensa nos dilemas antes de escrever ou eles vão surgindo à medida que a história vai sendo escrita?
Lehane — Não fico obcecado pelos dilemas. Tenho uma obsessão inegável com o que um amigo meu classificou como o “dilema irreconciliável”, o problema que nunca poderá ser resolvido de modo a satisfazer a todos. Venho fazendo isso há tempo suficiente para acreditar que minha propensão a explorar esse tipo de dilema significa que vou encontrá-lo em qualquer situação que imagine. Então me concentro em contar a história, e o resto se resolve sozinho.
ZH — Patrick Kenzie narra suas aventuras. O que vemos de Angie é filtrado pelos olhos do personagem. Ela antagoniza Patrick em diálogos afiados. Pode-se dizer que ela representa a consciência dele?
Lehane — Não, ela não é a consciência dele. Ela é, ao mesmo tempo, um obstáculo e um apoio para ele, e é muito mais instintiva e mais expansiva. Eles interagem de uma maneira bem interessante, que ajuda a narrativa a se movimentar.
ZH — Qual seria a sua atitude no final de Gone, Baby Gone? Ou é uma daquelas situações em que, como Amanda diz a Patrick, mesmo fazendo o certo, você está errado?
Lehane — Esse é o dilema irreconciliável que mencionei antes. E não importa o que eu faria, mas sim o que Patrick fez, como Angie se sentiu e de que maneira o leitor reage a isso.
ZH — Certa vez, li que não lhe agrada a ideia de trabalhar na adaptação de seus livros para o cinema – “Seria como operar o próprio filho”, o senhor disse. E o que o senhor achou dos três filmes baseados em suas obras, Sobre Meninos e Lobos, Medo da Verdade e Ilha do Medo?
Lehane — Todos são filmes excelentes, cada um a sua maneira. E são muito fiéis a meus romances. Então, se eu reclamasse, pareceria um idiota.
ZH — Boston, onde o senhor costuma ambientar suas histórias, tem a maior comunidade brasileira nos Estados Unidos, com mais de 200 mil imigrantes. De que maneira os brasileiros são vistos na cidade? O senhor já pensou em criar um personagem brasileiro?
Lehane — Não fazia ideia de que era a maior do país. Todos os meus colegas quando trabalhei estacionando carros eram brasileiros, então tive um grande contato com a cultura deles sempre que os visitava em Allston ou Somerville (um bairro de Boston e uma cidade do Estado americano de Massachusetts, respectivamente). Assistimos a muitos jogos de futebol, e aprendi bem a dizer alguns xingamentos em português. Não os percebia isolados na cidade, de maneira alguma. Aprendiam rápido. Conheci um que abriu uma oficina mecânica e outro que começou uma lavanderia que deu muito certo. Não posso falar sobre todo o povo ou a cultura do Brasil, mas meus amigos brasileiros seguem sendo, até hoje, as pessoas mais trabalhadoras que já conheci, e também algumas das mais alegres. São também os melhores — e mais loucos — motoristas que já vi.
ZH — O senhor recorda de algum palavrão em português?
Lehane — “Cabrão”, “Come merda”, “Porra”, “Tá tudo fodido”.
ZH — Quais são seus próximos projetos?
Lehane — Acabei de concluir um romance de gângsteres que se passa nas décadas de 1920 e 30, em grande parte no Latin Quarter da cidade de Tampa, na Flórida, em um local chamado Ybor City. Depois, vou começar a trabalhar na sequência dele.













