Estrada escura15/02/2012 | 05h50

Dennis Lehane volta aos personagens de "Gone, Baby Gone" em novo romance policial

Escritor americano alia dilemas éticos à prosa pop e vertiginosa

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Dennis Lehane volta aos personagens de "Gone, Baby Gone" em novo romance policial Jerry Bauer/Divulgação
Sai no Brasil romance "Estrada Escura", de Dennis Lehane Foto: Jerry Bauer / Divulgação

Não existe certo ou errado nos romances policiais de Dennis Lehane. Existe certo “e” errado, tudo junto e misturado, uma zona nebulosa, cinzenta, povoada por dilemas e indagações como: você entregaria seu cônjuge se descobrisse que ele cometeu um crime? Seguir a lei ou seguir a justiça? Em nome de ser aceito pelos outros, o quanto podemos nos esconder de nós mesmos? Como expulsar fantasmas interiores sem que eles apavorem as outras pessoas? Melhor viver como um monstro ou morrer como um herói?

Americano de 46 anos nascido em Dorchester, o maior e mais populoso bairro de Boston, no Estado de Massachusetts, Dennis Lehane é hoje um dos principais autores do gênero policial.

Por consequência, é também bastante procurado por Hollywood — três de seus livros já viraram filme: Sobre Meninos e Lobos, dirigido por Clint Eastwood, Gone, Baby Gone, que marcou a estreia do ator Ben Affleck na direção (e no Brasil rebatizado de Medo da Verdade), e Ilha do Medo, por Martin Scorsese (publicado originalmente por aqui como Paciente 67).

De fato, seus livros são bastante cinematográficos: a ação é vertiginosa; os diálogos, afiados e com uma pegada pop; há muitas reviravoltas. Mas Lehane constrói narrativas com mais profundidade e, por que não?, ambição artística do que muitos de seus pares de ficção policial. A inescapável pergunta “Quem é o culpado?” é quase um mero pretexto para abordar temas transcendentes.

Vejam o caso de seu mais recente romance, Estrada Escura (Companhia das Letras). Trata-se de um duplo retorno de Lehane: ele volta a escrever sobre os detetives particulares de Boston Patrick Kenzie e Angela Gennaro, protagonistas de seu livro de estreia, Um Drink Antes da Guerra (1994), e de outros quatro títulos; e reabre, 12 anos depois, o caso Amanda McCready, a guriazinha de quatro anos, filha de uma mãe viciada em drogas e álcool, que a dupla foi contratada para encontrar em Gone, Baby Gone. (A propósito, não é obrigatório ler Gone, Baby Gone antes de Estrada Escura.)

Daquela vez, quando encontrou Amanda em um lar muito mais saudável e afetuoso, Patrick — o narrador das histórias — se viu diante de um conflito, como ele diz, entre a ética da sociedade (cumprir a lei e devolver a menina a sua mãe biológica) e a ética da situação (preservar o bem-estar de uma criança de quatro anos e oferecer a ela um futuro).

Agora em Estrada Escura, a já adolescente Amanda sumiu novamente, e Patrick novamente tem que encontrá-la. Essa jornada, que envolve, entre outros personagens, um playboy inconsequente, outra garota desaparecida, uma quadrilha de falsificadores de documentos e mafiosos da Moldávia, tem tudo o que um bom romance policial precisa ter: mistérios intrigantes e revelações surpreendentes, violência física e perseguições automobilísticas, um punhado de humor sardônico e uma pitada de romance (eis uma ressalva: alguns dos diálogos entre Patrick e Angie soam artificiais, como um clichê da prosa noir).

Mas, aqui, ação rima com reflexão. Estrada Escura discute, em um ritmo ao mesmo tempo trepidante e harmonioso, temas perenes e contemporâneos: o abuso infantil e o bullying, o impacto da crise econômica nos EUA, a transformação da linguagem pela internet, a fragilidade das relações familiares, o poder arrasador dos vícios sobre a moral humana, a obsessão por um corpo perfeito, a culpa e o remorso.

Enfim: Dennis Lehane é o crime com penso.

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