Instalada em 2005 e interditada quatro anos depois, a escultura do artista paulista José Resende na orla do Guaíba, próximo à Usina do Gasômetro, na Capital, é tema de nova polêmica.
A possibilidade de remoção da obra pela prefeitura gerou reação no meio artístico.
Espécie de plataforma que se projeta em direção ao Guaíba e serve como mirante para o público, a escultura Olhos Atentos faz parte de um conjunto de arte pública apresentado na 5ª Bienal do Mercosul, em 2005, e doado pela Fundação Bienal à prefeitura de Porto Alegre. Obras permanentes de Carmela Gross, Mauro Fuke e Waltercio Caldas também foram doadas na ocasião.
Olhos Atentos foi interditada em 2009 em razão da deterioração da estrutura, que representa perigo para os usuários. Um buraco apareceu no piso, feito de uma tela de metal. A Fundação Bienal informa que, em 2010, intermediou proposta de reforma da obra entre um patrocinador e a prefeitura. A autorização da prefeitura foi obtida, mas o fornecedor do material teria demorado para apresentar o orçamento (cerca de R$ 100 mil). Ainda segundo a Bienal, àquela altura, a autorização teria expirado, e o patrocinador teria perdido interesse na reforma. Depois disso, não houve nova mobilização para a recuperação da escultura.
Na segunda-feira, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente divulgou nota informando que um contrato assinado entre a prefeitura e o escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados para a revitalização de 5,9 quilômetros da orla do Guaíba vai resultar em um estudo que avaliará o destino da escultura. Conclui o documento: "É importante destacar, por fim, que a Prefeitura de Porto Alegre não afirmou em nenhum momento que a obra seria 'destruída'. Mesmo sendo removido daquele ponto, o monumento poderá ser restaurado e reinstalado em outro local — somente com a finalização do estudo será possível tomar a decisão mais adequada".
Em entrevista por telefone a Zero Hora, de São Paulo, o artista José Resende avalia que "a gravidade (da situação) é absoluta":
— O trabalho só tem sentido na medida em que responde à situação para a qual foi proposto. Faz parte do sentido que as pessoas possam ver o pôr do sol dali. Caso seja removido para outro lugar, será apenas um pedaço de ferro. Minha autoria deixará de haver.
O pesquisador de arte pública José Francisco Alves, curador-assistente da 5ª Bienal do Mercosul e atual curador-chefe do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, criou um manifesto no site www.public.art.br e afirma que vai convocar uma reunião com especialistas para estudar medidas jurídicas a fim de evitar a remoção da obra.
— Não vi qualquer discussão na cidade sobre a ocupação da orla. Se houver um projeto nesse sentido, as obras de arte que pertencem ao povo de Porto Alegre não apenas devem permanecer em seus lugares como devem ser restauradas — diz Alves.













