'Com humor se diz tudo'06/11/2012 | 21h58

Luis Fernando Verissimo fala sobre novo livro

O escritor participa de atividades ligadas ao humor

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Luis Fernando Verissimo fala sobre novo livro Fernando Gomes/Agencia RBS
O escritor participa de duas atividades nesta terça na Feira Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS
Carlos André Moreira

carlos.moreira@zerohora.com.br

Com sua nova reunião de crônicas, Diálogos Impossíveis, Luis Fernando Verissimo protagonizou, involuntariamente, um "evento impossível" nesta Feira. A programação anunciava uma sessão de autógrafos do autor no domingo, dia 28, quando ele ainda estava em Paris. Agora, quem queria ter visto Verissimo tem nova chance. Ele estará participando de duas programações nesta quarta: uma mesa em homenagem ao mestre quadrinista Canini, às 16h30, no Santander, e um debate com Mario Prata, às 19h, no Memorial do Rio Grande do Sul. Na entrevista a seguir, Verissimo fala sobre seu novo livro, que reúne alguns dos "diálogos impossíveis" imaginados por ele entre figuras históricas e da cultura pop.

Zero Hora — Como surgiu a ideia de um livro de "diálogos impossíveis"?

Luis Fernando Verissimo — O Arthur Dapieve, da editora Objetiva, fez a seleção das crônicas e notou que um tema reincidente em algumas delas era o de diálogos imaginários. Foi ele que deu o título ao livro.

ZH — Com os "diálogos", sua intenção é usar o humor provocado pelo anacronismo ou pela liberdade da imaginação para fazer deles comentários de nossa época e de seus personagens?

Verissimo — A intenção era imaginar como seria, por exemplo, um encontro do Pablo Picasso com o Goya e, por meio do diálogo dos dois, dizer algumas coisas sobre eles, suas semelhanças e diferenças, e alguma coisa sobre a arte. A motivação foi sempre a de aproveitar a liberdade que a imaginação nos dá para fazer esses encontros impossíveis.

ZH — Como se dá seu processo de seleção de crônicas para uma publicação em livro? É o senhor quem organiza e seleciona, ou mesmo apresenta uma ideia que os unifique, como este Diálogos Impossíveis, ou há alguém na editora que o ajuda nesse trabalho?

Verissimo — As crônicas são selecionadas entre as publicadas em jornais, no caso na Zero Hora e no Estadão, e obviamente entre as que não são topicais e perderiam o sentido sem a referência ao fato passageiro. A seleção é da editora, sujeita a minha revisão, claro.

ZH — Neste seu novo livro, os textos são historietas, contos humorísticos, narrativas de humor às vezes nonsense. É um livro eminentemente narrativo. Essa seleção foi determinada pela natureza ficcional dos próprios diálogos?

Verissimo — Na verdade, os "diálogos impossíveis" são poucos no livro. As outras crônicas não me parecem muito diferentes das que têm saído em livros, pelo menos na minha opinião. Mas sempre gostei de diálogos, de contar uma história ou revelar personagens e sua relação usando só diálogos.

ZH — O senhor é continuamente apontado como o maior cronista em atividade no Brasil. Quem são os cronistas atuais que acompanha e definiria como os melhores atualmente?

Verissimo — Acho que o Arnaldo Jabor escreve muito bem. Gosto do Zuenir Ventura, do Milton Hatoum como cronista, do Antonio Prata. E temos os nossos David Coimbra, Claudia Laitano, Carpinejar, Martha Medeiros... Além da meia-dúzia que estou esquecendo...

ZH — Em mais de um texto de seu novo livro, o senhor fala de circunstâncias absurdas ou vontades mal interpretadas em velórios. Seus textos têm abordado mais a ideia de finitude?

Verissimo — Pois é. Não sei por que, mas acho que velórios dão boas histórias. Se isso vem de uma preocupação com a minha própria finitude, que é constante, não sei. Sei que não quero ninguém rindo no meu velório.

ZH — O senhor parece hoje comentar com menos constância o cenário político, como fez em outros momentos de sua carreira. Por quê? É um otimista ou se  sente desencantado com muito do que aconteceu na política brasileira nos últimos anos, inclusive os escândalos envolvendo o governo Lula?

Verissimo — Acho que há muito o que criticar no governo Lula, mas a oposição ao PT no poder tem sido tão preconceituosa e desonesta que é preciso cuidar para não ser cúmplice da reação. Quanto às condenações pelo escândalo do mensalão, acho que só se pode dizer dos juízes do Supremo o que disse o Marco Antonio sobre os assassinos de Cesar, na peça do Shakespeare, sem sua ironia: que são todos homens honrados. Acreditar que foram condicionados pelo clima político ou pela imprensa é desacreditar em tudo o mais e cair num vácuo moral. Prefiro a condenação do PT ao vácuo. Mas não deixa de ser estranha a indiferença às origens da prática do mensalão, para favorecer o PSDB em Minas, e na compra de votos para reeleger o Fernando Henrique.

ZH — Que lugar o humor ainda tem em uma sociedade como a brasileira, que parece um tanto mais indignada e agressiva? O brasileiro está perdendo o humor?

Verissimo — O humor é uma maneira de dizer, e com ele se diz tudo. Com humor, pode-se comentar até a falta de humor. E pode haver humor até em velório.

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