É uma obstinação que Sylvio Back cumpre com empenho e talento em seus filmes: exumar capítulos nebulosos do passado do Brasil, aqueles ignorados pelos registros oficiais, relegados a notas de rodapé nos livros de história ou contados de forma enviesada.
Deflagrada por questões territoriais,a Guerra do Contestado opôs Paraná e Santa Catarina entre 1912 e 1916 e deixou como saldo cerca de 20 mil mortos e desaparecidos – entre combatentes e vítimas de fome e doenças decorrentes de cerco e isolamento. O conflito tornou-se complexo por incorporar em seu andamento componentes religiosos, econômicos e separatistas.
Back já havia tratado do tema na ficção A Guerra dos Pelados (1970). Agora, ele apresenta no documentário Contestado – Restos Mortais, em cartaz em Porto Alegre, uma abordagem ao mesmo tempo didática e profunda, que faz uso até mesmo de transes mediúnicos para se aproximar do aspecto místico que envolve o episódio.
Confira trechos da entrevista com o diretor.
Zero Hora — Depois de abordar o Contestado na ficção, em A Guerra dos Pelados (1970) , o que lhe motivou a voltar ao tema no documentário?
Sylvio Back — A sensação de lesa pátria nunca deixou de me tentar, não apenas como cidadão, mas por ser um cineasta cuja obra é seduzida pela ânsia de reverter as falácias e o esquecimento da história oficial: o quão submersos, ignorados, omitidos, distorcidos e minimizados permanecem os fatos e atos dessa verdadeira guerra civil que foi a Guerra do Contestado. A época de sua eclosão, na falta de melhor compreensão do inusitado levante e até pela proximidade histórica, logo se alcunhou o Contestado de "Canudos do Sul". Há semelhanças, principalmente na crença da chegada de um messias, no fanatismo dos caboclos e na feroz repressão militar, mas seu espectro místico, bélico, geopolítico, sócioeconômico e demográfico extravasa em envergadura, recorrência e reflexos nas décadas seguintes a epopeia de Antonio Conselheiro. Nessa retomada sob outro registro, vali-me como inspiração do substrato mítico e mitológico que cercava os monges João e José Maria (inspiradores do movimento, o primeiro, pacifista, o segundo, com vocação guerrilheira) e seus seguidores. Além de rezarem pela ressurreição de "São" José Maria, alçado à condição de santo depois de morrer desafiando a polícia militar do Paraná no combate do Irani (1912), os caboclos começaram a acreditar fanaticamente na vinda de um "exército encantado", liderado por São Sebastião, para tirá-los da pobreza. E, igualmente, para enfrentar o "polvo" da modernidade, como alcunhavam a chegada do capitalismo à região através de uma estrada de ferro e de uma serraria multinacionais, que se instalavam no planalto de Santa Catarina expulsando-os de suas terras e transformando-os em operários.
ZH — Percebe-se no filme a força da tradição oral na preservação da memória do Contestado. Como o senhor trabalhou para contrapor esses relatos, que podem ser imprecisos e distorcidos, com os depoimentos de historiadores e os registro oficiais?
Back — Em nossas pesquisas de campo, revisitando os principais sítios onde ocorreram os mais sangrentos embates, não deixou de ser triste constatar o quão vem se desmilinguindo a memória dos atos, fatos e personagens, mesmo entre os descendentes com quase cem anos. Primeiro, vitimas do tempo, da desmemória etária, depois, era como não quisessem rebuscar lembranças que lhes traziam dor, remorsos e até um sentimento de culpa. Melhor esquecer do que rememorar uma tragédia que deixou um rastro de inocentes mortos, diziam. Na medida em que a conversa avançava, testemunhos magistrais reproduziam um quadro tão vivo quanto uma imagem de filme. Senti no relato dos próprios 20 historiadores, todos com doutorado no tema — inclusive, um brasilianista, Todd Diacon —, uma exorcização dos eventos com muita verdade e convicção intelectual e moral, mesmo quando discordam entre si.
ZH — O filme destaca que o Contestado teve diferentes motivações no andar do conflito e muitas forças e interesses envolvidos. O que resume essa guerra com mais precisão: disputa territorial, fanatismo religioso, resistência à autoridade, luta por autonomia política e econômica?
Back — A meu ver e também a esses fatores se deve parte da invisibilidade nacional do Contestado: a tentativa separatista, com a proclamação da Monarquia Sul-Brasileira, cujo território previa a incorporação inclusive do Uruguai, do Rio Grande do Sul, do Paraná, de São Paulo, estendendo-se até o Rio de Janeiro; o terrorismo que vingou de ambas as partes dos litigantes e, finalmente, a ostensiva xenobofia, jogando imigrantes europeus contra os caboclos, quilombolas e índios. No primeiro caso, desde o Império, a geopolítica portuguesa, depois assumida pela República, jamais permitiu que vingasse qualquer insurreição separatista. E elas são inúmeras, todas sufocadas a ferro, fogo, muito sofrimento e sangue. No Contestado não seria diferente. Quando se divulgou a constituição do "novo país" inspirada na frustrada República Piratini, o presidente Hermes da Fonseca ficou furioso. Ato contínuo, enviou o general Setembrino de Carvalho, que havia esmagado a rebelião do padre Cícero no Ceará, ao Contestado no comando de 7 mil homens, um terço do efetivo nacional, com armamento moderno (até avião foi cogitado) da I Guerra Mundial, que começava em 1914. Enquanto os espanhóis assistiram à criação de mais de 30 países do Caribe à Argentina, o Brasil nasceu continente e assim ficaria. O segundo elemento incandescente desse descaso histórico em relação ao Contestado era a prática do terrorismo, agenciado pelo Exército, pelas polícias militares do Paraná e de Santa Catarina e pelos asseclas dos coronéis, os vaqueanos, "tropa" assalariada pelo Exército e que em seu nome roubava, estuprava e matava. Muitos historiadores, que se comprazem em reavivar a voz dos derrotados, passam ao largo dos mesmos atos criminosos de seus
antagonistas, até dos constrangimentos físicos a que os caboclos se submetiam no interior de suas cidadelas, onde rezavam o tempo todo, sem trabalho, A violência ficou indistinta entre repressão e oprimidos, fazendo jus à famosa frase de Rudyard Kipling: na guerra, a primeira vítima é a verdade. Finalmente, o forte racismo que vingou contra o caboclo, o posseiro, o pequeno proprietário, negros e índios que foram expulsos de suas terras porque não tinham título de propriedade. O imigrante europeu (polaco, alemão, ruteno, italiano) trazido pela companhia colonizadora multinacional era alocado na terra, provocando um ódio mortal entre eles, cujo epílogo acabou ocorrendo durante o desenrolar dos quatro anos do conflito.
ZH — Seu filme cita a presença de gaúchos atuando de forma coadjuvante no Contestado, alguns como mercenários. Eles lutaram mais por qual lado?
Back — Mais uma vez a complexidade do Contestado vem à tona. A presença gaúcha se deu em várias frentes. Tanto entre as lideranças bélicas dos fanáticos, egressos das tropas então desmobilizadas de Gumercindo Saraiva, e de muitos fugitivos derrotados pelo presidente-ditador Floriano Peixoto na Revolução Federalista (1893 — 1895), quanto entre os caboclos rebeldes e entre as tropas do general Setembrino de Carvalho, ele próprio gaúcho de Uruguaiana, que "importou" 900 cavalarianos do Rio Grande para debelar o levante. A Revolução Farroupilha era sempre lembrada. Mas, o Contestado acabou numa guerra civil fratricida, irmão lutando contra irmão em trincheiras opostas, provocando um clima de terror nunca antes visto no interior do Brasil.
ZH — A interferência dos transes mediúnicos surpreende por quebrar a narrativa histórica. Qual foi sua intenção com esse recurso? Os transes são genuínos ou foram dramatizados?
Back — É a primeira dúvida que vem à cabeça do espectador. Cheguei a ser elogiado pela direção daqueles supostos atores e atrizes. Mas tive que decepcionar a todos. Não há nenhuma dramatização nas cenas de alta combustão emocional. Ao longo de semanas, quase sempre nas proximidades onde ocorreram os maiores massacres e degolas em massa, filmamos mais de cinquenta médiuns em transe. E, para nossa sorte, ainda que naturais e morando no perímetro bélico do Contestado, essas pessoas pouco sabiam sobre o evento. Ou seja, o que as nossas câmaras e microfones capturaram não era o que poderia ser visto como uma "leitura"de mentes informadas sobre o assunto. Era tão poderosa a energia que emergia dos médiuns que chegava a nos conturbar na hora das filmagens. E eu tinha, e tenho, a maior admiração por esse indecifrável mergulho no âmago do homem. Daí a ideia de compartilhar esse fascínio através da linguagem cinematográfica.
ZH — O senhor é um grande batalhador pela preservação da história brasileira tanto em seus documentários quanto nos projetos de ficção. O Brasil continua relapso com seu passado?
Back — Sim, o país é tristemente relapso, seja na tela, seja nos livros, no teatro, na música, com seu passado recente e remoto. Tem importância a memória, o testemunho, o resgate, o contraditório, as versões do vencedor e do vencido, mesmo que saibamos que ambos mentem. O caso da Guerra do Contestado não é apenas emblemático. É simbólico. Parte da academia brasileira, tradicionalmente maculada por interesses corporativos, pequenez moral, preguiça e por compromissos ideológicos nem sempre explícitos, há um século vem mantendo soterrada esta verdadeira guerra civil nos sertões do Sul. Como se ela jamais tivesse existido. Felizmente, nem tudo está perdido. Ergamos as nossas hosanas aos historiadores catarinenses, paranaenses e gaúchos que, nessas últimas três décadas têm evitado que o Contestado desapareça na desídia da nossa amnésia histórica.
ZH — Qual a maior dificuldade que o senhor encontrou para editar o material pesquisado e registrado?
Back — São quase oito anos desde quando decidi retomar o Contestado numa pegada que mesclasse a realidade e o imaginário sobrevivente. Foram mais de 60 horas de filmagens, incluindo 17 horas com médiuns em transe. Cobrimos durante dois meses todo o teatro de operações da guerra, o centro-oeste de Santa Catarina. Na primeira versão da montagem o filme tinha quatro horas e meia de duração. Para o Festival de Gramado levei uma versão de duas horas e quarenta minutos e pressenti a dificuldade que seria exibi-lo comercialmente. Então, com muita dor no coração, mas de olho na integridade da linguagem e do conteúdo histórico, remontamos, o editor do filme, Paulo Henrique (PH) Sousa, e eu para 118 minutos. E não só como cineasta, mas poeta e escritor, sei que a melhor máxima para um criador é ter coragem de cortar sua criatura. Fomos poeticamente cirúrgicos.
ZH — Qual seu projeto para fazer o filme circular para além do circuito de cinema?
Back — Se o filme tem alguma pretensão, digamos, extra-artística, é a de retirar a Guerra do Contestado do limbo da história do Brasil. Para tanto, já a partir de 2013, tão logo esgote o mercado exibidor de cinemas, será lançado em DVD, bem como terá sua fruição por TVs aberta e por assinatura. Atualmente, o filme está entrando em sua quarta semana em cartaz em Florianópolis e Curitiba. E, no dia 23 próximo, estreia simultaneamente no eixo Rio-São Paulo. Ainda neste ano, terá lançamento em Brasília, Belo Horizonte e Salvador. Em 2013, o Nordeste e o Norte do país. Com esse espectro nacional de exposição, acredito que a Guerra do Contestado finalmente terá conhecida e reconhecida toda a sua envergadura histórica .








