Crack nem pensar | 15/05/2010 18h09min
O corpo e os dedos das mãos estão enrijecidos. Fixos, os olhos quase não piscam. Com apenas dois meses e meio de vida, E. é viciado em crack. Acolhido na última semana no Lar Ipanema da Fundação de Proteção Especial do Rio Grande do Sul (FPE), na Capital, o bebê sofre com a abstinência e complicações cerebrais. A mãe, que consumiu a droga na gestação, abandonou no hospital mais um órfão do crack.
Ele engrossa uma estatística trágica que não para de crescer no Estado: cerca de 70% das crianças encaminhadas para abrigos hoje são filhos de dependentes da pedra, de acordo com levantamento do 2° Juizado da Infância e Juventude em Porto Alegre. Desde 2008, o juiz José Antonio Daltoé Cezar vê casos se acumulando sobre sua mesa. Na quarta-feira, após interrogar uma viciada de 15 anos que, com o namorado, ajudou a matar a cunhada, o magistrado desabafou:
– Ela confessou tudo. O pior é que está grávida de cinco meses. Talvez tenha de decidir o futuro do filho também. Não me incomoda tirar filho de mãe usuária de crack. Aqui é uma via de mão única. Não tem direito de pai e mãe. Quem tem direito é a criança.
Assim como E., o filho dessa jovem provavelmente terá como destino um abrigo público. Hoje, mais de mil crianças e adolescentes, de zero a 17 anos, vivem nos lares mantidos pela FPE, em Porto Alegre e no Interior, e pela Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) da Capital, e para pelo menos 700 deles o crack foi o combustível para destruir suas famílias. Ao entrar nesses locais, os rebentos da pedra parecem saídos de uma batalha. Chegam em um estágio de trauma absoluto, causado pelas cenas insanas que presenciaram em casa e, ao mesmo tempo, pela dor da separação.
– Os relatos são horríveis. Eles precisam de acompanhamento direto para descobrir que existe um mundo sem a droga – afirma a assistente social Taiane Tonetto, do Lar Ipanema.
Depois de ingressar, menos de 20% retornam para a mãe. Uma pequena parcela segue para a casa de parentes. A maior parte, porém, fica. Só sai depois de completar 18 anos.
Entre os bebês de até dois anos que chegam à FPE, como E., a mãe de 60% deles é dependente de crack, de acordo com a diretora técnica, Sandra Helena de Souza. No Lar Ipanema, todos os 21 bebês foram gerados absorvendo os venenos da pedra.
– É necessária uma política pública efetiva de prevenção à gravidez precoce e indesejada. E, havendo a gravidez, que seja promovido o direito do bebê de nascer em melhores condições, facilitando a adoção. Não adianta só atender, atender, atender. A gente se pergunta: quantos abrigos ainda serão necessários? – indaga Sandra.
Pelo baixo preço e pelo efeito imediato, o crack está encravado nas periferias há mais de uma década e avançou nos últimos anos para todas as classes sociais. Nas vilas, os casos saltam como pulgas, como falam conselheiros tutelares. O conselheiro Antônio Américo Machado diz que precisam enfrentar até traficantes para poder preservar a vida dos filhos dos “zumbis”.
– Já chegamos a ter de falar com o dono da boca para levar os filhos de uma viciada. Retirar as crianças da mãe é o último recurso. Tentamos conversar, encaminhar para atendimento primeiro. Mas, quando não tem jeito, o melhor é levar para o abrigo. Quando isso acontece é que elas sentem. Dizemos para as mães: agora é tudo contigo. Se quiser ver teu filho de novo, vai ter de largar a pedra. Algumas tentam, mas poucas conseguem – lamenta Américo.
| Os motivos para a perda da guarda |
| O 2° Juizado da Infância e da Juventude constatou que 70% de 268 crianças e adolescentes acolhidos em abrigos da Capital, no primeiro semestre de 2009, tinham pais viciados em crack. Outros fatores relacionados à droga também podem levar à perda da guarda: |
| Pais usuários de droga* 74 |
| Abandono* 79 |
| Drogadição* 26 |
| Pais presos* 12 |
| Abuso sexual 20 |
| Maus-tratos* 7 |
| Pais hospitalizados* 7 |
| Medida socioeducativa 8 |
| Determinação judicial 32 |
| Orfandade 3 |
| * Casos com os quais o crack pode estar relacionado |
| O NÚMERO AUMENTA |
| - Em 2009, 43 recém-nascidos de mães usuárias de crack foram encaminhados pelos juizados aos abrigos da Fundação de Proteção Especial. |
| - Em 2010, já são 22 novos casos de bebês na mesma situação. |
Na verdade a responsabilidade sobre estas crianças é de todos nós. Eu mesmo tenho em minha casa uma criança vítima de uma mãe viciada em crack. Mesmo fazendo a minha parte sinto que na sombra de tudo isso existe um interesse maior, que nem a sociedade e o poder público conseguem combater. Bom foi a mídia ter entrado neste briga, acredito que algumas crianças e até mesmo alguns usuários conseguirão salvar-se desta situação tão deplorável em que se encontram. Mas fica o meu desabafo registrado e ninguém melhor que a família pode evitar que mais pessoas se viciem nesta droga maldita e mais do que nunca o bem tem que vencer o mal, ou alguém tem alguma dúvida sobre isto?
Como fazer para conseguir a adoção de uma criança ainda bebê?
A assistente social Taiane Tonetto trabalha no Lar Ipanema, na Capital, onde todos os 21 bebês são filhos de usuárias de crack
Foto:
Emílio Pedroso
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