Crack nem pensar | 19/12/2009 17h08min
A partir da soma de esforços contra a epidemia que vicia, arruína e mata, o Estado comemora os primeiros resultados para vencer o problema, transformado nesta semana em bandeira nacional, com o lançamento da Campanha de Alerta e Prevenção do Uso de Crack, pelo governo federal.
Impulsionada por iniciativas como a campanha Crack, Nem Pensar, lançada no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina em maio deste ano pelo grupo RBS e apoiada por uma série de instituições públicas e privadas, a mobilização começa a reverter as estatísticas e transformar o comportamento da população, que cada vez mais troca o papel de refém da droga pelo de protagonista dessa luta.
Um dos reflexos do aumento dessa conscientização é o crescimento de 24% nas ligações recebidas pelo disque-denúncia do Departamento Estadual de Investigação do Narcotráfico (Denarc) neste ano, que ajudou a engordar o número de prisões de traficantes. Apenas em novembro, foram presos 17 traficantes por dia no Estado, um
incremento de 36,5% em
relação a 2008.
Mais do que um indicador isolado, o cerco ao crack é considerado um dos principais motivos para a queda nos índices de criminalidade no Estado, registrada pela Secretaria da Segurança Pública neste ano. As estatísticas mostram que, à medida que as prisões por tráfico e as apreensões da pedra crescem, os crimes mais violentos caem. Nos primeiros 11 meses do ano, os assassinatos tiveram redução de 12,2% em comparação ao mesmo período do ano anterior. Emblemática, a redução nos homicídios é utilizada como parâmetro internacional para medir a violência em uma região.
Segue o alerta em 2010
A articulação entre diferentes setores da sociedade também faz a diferença. Em São Gabriel, por exemplo, foi criada uma força-tarefa em parceira entre o Ministério Público, a Brigada Militar e a Polícia Civil. Semanalmente, o grupo se reúne para trocar informações sobre a repressão ao tráfico e, uma vez por mês, realiza blitz em pontos suspeitos do
município, de 62 mil habitantes. Como
consequência, entre junho e julho foram presos 19 traficantes – incluindo os três principais chefes do tráfico na cidade – e apreendidos 1,5 quilo de crack.
– Antes eu achava que São Grabriel nem tinha muito crack, porque era uma cidade pequena. Quando lançamos o programa, as informações começaram a aparecer, com pessoas pedindo tratamento e denunciando traficantes. Isso deu visibilidade a um problema que até então permanecia oculto – analisa a promotora de Justiça Ivana Machado Battaglin, idealizadora do programa.
As conquistas se multiplicam pelo Estado. Em Rio Grande, até uma lei foi criada para oficializar a luta contra o crack. Por meio de um decreto municipal, foi instituído há dois meses na cidade o Comitê de Gestão Social, que reúne todas as secretarias e conselhos municipais e instituições como o Ministério Público, o Judiciário, a Defensoria Pública e hospitais.
– O decreto é importante porque compromete e articula os parceiros, a luta
contra o crack se torna uma prioridade
do município– avalia o promotor de Justiça Rodrigo Schoeller de Moraes.
Como o desafio está apenas começando, a mobilização não arrefecerá com o fim do ano. O Grupo RBS manterá o alerta em seus veículos em 2010, com uma nova fase da campanha a ser lançada em março. Para o psiquiatra Sérgio de Paula Ramos, coordenador da Unidade de Dependência Química do Hospital Mãe de Deus e membro do conselho consultivo da Associação Brasileira de Estudos sobre Álcool e Outras Drogas, um dos desafios que se impõem à sociedade é avançar na prevenção.
– Ninguém começa com o crack, a maioria começa com o álcool. Então é preciso prestar mais atenção nisso – alerta.
Desesperado, pai gastou cerca de R$ 15 mil para saldar dívidas e para pagar traficantes
Foto:
Ronaldo Bernardi
Grupo RBS
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