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Crack nem pensar  |  27/05/2009 20h34min

Fazenda Esperança: quando o interno faz as malas

ZH acompanhou durante 21 dias a luta contra o flagelo das drogas

Nilson Mariano  |  nilson.mariano@zerohora.com.br

O jovem de 24 anos deposita as malas no portal da Fazenda da Esperança, na manhã de sábado, e comunica que vai embora.

Os padrinhos se esforçam para retê-lo, desfiam argumentos, tudo em vão. É um simbolismo: quando o interno apronta a bagagem, ele afivela a vontade de partir e corta qualquer margem de negociação.

De cada 10 dependentes de crack que entram na instituição, entre dois e quatro completam o tratamento de um ano. O rapaz que fez as malas (será identificado pela inicial do nome, R., de Carazinho) abortou a sétima tentativa que empreende para se libertar do crack no 43º dia de fazenda. Achou que estava pronto.

— Posso fazer a minha caminhada sozinho lá fora — anunciou.

A decisão de abandonar é precedida de pequenos sinais. Ultimamente, R. andava mostrando a fotografia da filha, de quase dois anos, sem dissimular a corujice amplificada pela saudade. A rotina espartana também pesou. Para um jovem de classe média, era penoso levantar antes do sol nascer e caminhar sobre a geada que enregela os pés até a estrebaria, onde auxiliava na ordenha das vacas.

Enquanto aguardava a condução para ir embora, R. contou que se entupiu de crack. Antes de entrar na Fazenda da Esperança, vendeu todos os móveis e eletrodomésticos do apartamento para sustentar o vício. Foi abandonado pela mulher, ficou apenas o cãozinho Lucky enroscado a ele no colchão sem cama. Até o tubo da caixa sanitária e as luminárias foram entregues a traficantes.

Contente por voltar para casa, confidenciou que aceitou as internações anteriores mais para acalmar os pais:

— No fundo, não queria parar de usar drogas. Era bom. Quando fumei o crack, estremeceu até a ponta do dedo do pé...

Antes do anoitecer, R. deixou a Fazenda da Esperança. Ao abandonar o tratamento, ouviu do interno Darío Sebastián Giménez, 26 anos, que tentava convencê-lo a ficar:

— Você está saindo do céu para entrar no inferno, e por sua vontade.

No leque de perfis dos internos da Fazenda da Esperança, existe o tipo ioiô. É o que pede para entrar, abandona o tratamento e torna a voltar à entidade. Um deles é M., 30 anos, um disc jockey (DJ) viciado em crack.

M. IMPLOROU PARA ENTRAR, MAS FICOU APENAS 19 DIAS

Em 11 de julho, cansado e com medo, M. bateu às portas do seminário rogando para ser abrigado. Veio de Passo Fundo, a 65 quilômetros, caminhando e pegando carona. A ameaça do traficante, para quem devia R$ 200, ressoava na cabeça:

— Se não pagar, o bicho vai pegar!

M. foi internado pesando 13 quilos abaixo do normal. Não tinha documentos – condição para entrar na fazenda —, pois a cédula de identidade e a carteira de trabalho foram hipotecadas em bocas-de-fumo. No início, o DJ mostrou-se cooperativo, ajudou na cozinha, roçou macegais, varreu corredores.

Duas semanas depois, quando já tinha recuperado sete quilos, ganhou atendimento dentário gratuito na Odonto Clínicas Zandoná. O doutor José Mario Zandoná e seu filho, Josué, costumam auxiliar a Fazenda da Esperança. Se fossem cobrar do DJ, a conta seria de R$ 1,2 mil.

Mas ninguém fica impune depois de fumar o equivalente a R$ 10 mil em crack, em apenas dois meses. O DJ cometeu a proeza com o cunhado e mais dois companheiros, o dinheiro veio da venda de um terreno.

No 18º dia de internação, ele precisou ir ao médico, que diagnosticou crise de abstinência. Na manhã seguinte, arrumou as malas. Um dos padrinhos tentou segurá-lo:

— Mas coloca os pés no chão, te acalma. Até quando vais fugir de ti mesmo?

Decidido, o DJ gritou nos corredores:

— Quero fumar o meu cigarro e tomar cerveja bem gelada. O resto é bobagem!

Ouça depoimentos emocionantes de internos: 

SÉRIE PUBLICADA POR ZERO HORA EM SETEMBRO DE 2008

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