Crack nem pensar | 27/05/2009 20h30min
O jovem fluente em inglês e espanhol varre os corredores do seminário da Fazenda da Esperança, mas o barro vermelho que gruda nos sapatos dos internos voltará a sujar as lajes. Resignado com as tarefas que recebe, ele também lava pilhas de louça e panelas, enquanto lembra a época em que era recepcionista de um hotel internacional de Curitiba. Todo dia, a mesma faina.
Preferindo ser identificado pela inicial do nome, G. está na fazenda desde fevereiro. É a nona tentativa que faz para se livrar do crack. Já esteve em oito clínicas, hospitais e comunidades terapêuticas, mas em todos sucumbiu ao apelo da droga. Agora, obstina-se que vencerá.
Ele começou a se drogar aos 15 anos, numa casa noturna GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), onde encontrou dois rapazes e uma mulher no banheiro mix. Ela preparou quatro carreiras de cocaína e ofereceu um canudo para o então adolescente:
— Ó, essa é pra ti, meu lindo!
Com o batismo,
G. não parou mais. Fumou maconha, sentiu que a cocaína
o libertava da timidez. Colecionou amigos na noite, afundou na promiscuidade, com drogas e sexo. Aos 19 anos, depois de pensar no suicídio, estarreceu a família — o pai é oficial militar — ao revelar o homossexualismo e a dependência. A partir daí, sua vida passou a ser regida por sucessivas internações:
1ª) Na primeira vez, em Santa Catarina, ficou quatro meses.
2ª) Na segunda, no hospital psiquiátrico de Curitiba, mais 30 dias.
Ao sair da segunda internação, aos 21 anos, G. conheceu o crack. A euforia superou a das injeções de cocaína na veia. G. atirou-se na novidade, fumando diariamente, cada vez mais. Roupas de grife, tênis e aparelhos de DVD pararam nas mãos dos traficantes. Um relógio Tommy Hilfiger, de R$ 800, foi trocado por míseras duas pedras.
O crack arruinou o caráter de G., que chegou a furtar dinheiro de colegas, no escritório, depois chorou de vergonha e devolveu os valores. Numa sexta-feira, aos
21 anos, os hábitos devassos apresentariam a
conta, na forma de um atestado médico: contraíra o HIV. Abatido, tomou uma overdose, foi encontrado babando e meio torto.
3ª) Nova internação no hospital psiquiátrico de Curitiba, onde ficou dois dias.
4ª) Quinze dias depois, baixou no mesmo hospital.
O rapaz de 1m87cm perdera quase 20 quilos, caminhava encurvado, os fundilhos sobrando, como um boneco de engonço prestes a se decompor. Quando estava com os dedos sapecados, de tanto acender o isqueiro do crack, viu a mãe tentar arrancar os próprios cabelos, desesperada. Então,
5ª) foi internado na Pinel, Curitiba.
Melhorou. Teve um tórrido romance com um professor universitário, até que o crack os separou. Foi selecionado para trabalhar no hotel cinco estrelas, sendo promovido a recepcionista trilíngüe. Mas não resistiu.
6ª) De novo, na Pinel.
Em janeiro de 2007, pesaroso com a morte de uma amiga, seguiu a rotina de
internações.
7ª) No Centro Terapêutico Viva, de São Paulo, por mais quatro meses.
Depois de agredir o pai e quase bater na mãe também, foi morar em Belo Horizonte, mas o crack o transformou num mendigo.
8ª) Voltou ao Viva (SP).
Ao terminar a oitava internação, não teve tempo para novas recaídas. Em Curitiba, a mãe o recepcionou com duas opções:
— É a Fazenda da Esperança ou a rua.
Ouça depoimentos emocionantes de internos: ![]()
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