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Crack nem pensar  |  02/08/2010 04h47min

Estudo que aponta uso da maconha como terapia para derrotar o crack gera polêmica

Pesquisa foi citada pelo jornalista Marcos Rolim em artigo da edição dominical de ZH

A pesquisa paulista que aponta a maconha como remédio para derrotar o vício em crack é considerada inválida e até mesmo irresponsável na comunidade científica brasileira. O assunto ganhou repercussão no fim de semana, quando o trabalho foi citado pelo jornalista Marcos Rolim em artigo da edição dominical de Zero Hora.

Confira a íntegra do artigo publicado em Zero Hora

No texto intitulado Maconha, porta de saída?, Rolim afirma que a pesquisa representa o “mais impressionante resultado de superação de crack no Brasil”, critica a falta de repercussão que ela teve e utiliza o estudo para defender o uso medicinal da maconha. O artigo motivou forte reação de leitores. Vários enviaram e-mails de protesto ao jornal.

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A pesquisa citada por Rolim foi realizada pelo psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, diretor do Programa de Orientação e Tratamento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A experiência consistiu em oferecer maconha a um grupo de 50 usuários de crack. Conforme os dados, 68% haviam trocado de droga depois de seis meses. Após um ano, quem fez a substituição deixou também a maconha. Em reportagem recente da Folha de S.Paulo, Silveira descreveu o experimento como “um sucesso”.

– A dependência de maconha é muito menos agressiva do que a do crack. Nesses casos, a maconha funcionou como porta de saída do vício – disse o pesquisador.

Não é o que pensam especialistas em dependência química. Ex-presidente e atual membro do conselho consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), o psiquiatra gaúcho Sérgio de Paula Ramos é enfático na hora de criticar o trabalho de Silveira. Ele cita um episódio ocorrido em um Congresso Brasileiro de Psiquiatria, alguns anos atrás, na época em que o experimento foi divulgado. Ramos e Silveira foram agendados para uma mesma mesa, durante a qual discutiriam. Segundo o gaúcho, Silveira, que estava presente no congresso, não apareceu e “escapou do debate científico sério”.

– Ele não teve peito de ir. O experimento não tem a menor credibilidade científica. Foi muito criticado quando veio a público, anos atrás. Foi feito com poucas pessoas, seguidas durante pouco tempo. Dizer que a maconha pode fazer algum bem beira a irresponsabilidade. É dar as costas para a ciência – diz Ramos.

Psiquiatra diz que estudo é contestado na metodologia

Conforme ele, chefe da unidade de dependência química do Hospital Mãe de Deus, há uma biblioteca inteira de trabalhos científicos brasileiros e internacionais demonstrando que a maconha é prejudicial à saúde e serve de porta para drogas mais pesadas.

– O brasileiro começa com álcool. Quem evolui para as drogas ilícitas passa primeiro pela maconha e depois para a cocaína. Em 40 anos, nunca tratei um usuário de cocaína e de crack que não tivesse começado pelo álcool e pela maconha – afirma.

O psiquiatra Félix Kessler, do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), também afirma que o estudo de Silveira é muito contestado em termos metodológicos. Uma das falhas seria o trabalho não levar em conta se outros fatores, como família e emprego, conduziram os dependentes observados à abstinência.

– Do jeito como o estudo foi feito, não é possível dizer que foi a maconha que fez os pacientes deixarem de usar crack, como dá a entender – disse Kessler.

Ontem, Zero Hora não conseguiu contato com Dartiu Xavier da Silveira.

Artigo causa reação no RS

Ex-deputado federal e militante da área de direitos humanos, Marcos Rolim tomou conhecimento do estudo em um artigo do jornalista Gilberto Dimenstein, publicado em maio pela Folha de S. Paulo. No texto, Dimenstein saiu em defesa de Silveira.

A partir da leitura do texto, o gaúcho acreditou que o experimento recém havia sido divulgado, mas profissionais da área afirmam que ele é conhecido – e desconsiderado – há anos.

– Por trás do discurso desses pretensos especialistas há muita enganação. Quero ver os artigos científicos criticando a pesquisa – disse Rolim ontem à noite.

Saiba mais
A PESQUISA
Como foi o experimento realizado por Dartiu Xavier da Silveira, da Unifesp:
- Cinquenta pacientes usuários de crack que não respondiam a tratamento por remédios passaram a usar maconha
- Conforme o estudo, 68% haviam trocado o crack pela maconha seis meses depois
- Após um ano, todos os que fizeram a troca não estavam usando nenhuma droga
AS CRÍTICAS
As contestações ao trabalho na comunidade científica:
- O grupo pesquisado foi pequeno
- O experimento acompanhou os pacientes durante pouco tempo
- Não foram levados em conta outros fatores que podem ter levado à abstinência
- Não foi utilizada uma metodologia que permitisse embasar as conclusões tiradas
- Apenas preliminar, o estudo não teve prosseguimento
O QUE OS ESTUDOS CIENTÍFICOS ACEITOS DIZEM
- Junto com o álcool, a maconha serve como porta de entrada para drogas mais pesadas, como a cocaína e o crack
- A maconha é muito perigosa para os adolescentes
- Está associada a retardo no desenvolvimento escolar
- A maconha também está associada ao surgimento de depressão e esquizofrenia
- A droga aumenta a evasão escolar

ZERO HORA

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