
Esta é para provar que não apenas autores de segunda linha e romances melosos ou apelativos de relevância literária duvidosa são vítimas da sanha assassina dos capistas bregas (neste caso em particular um tal "Estúdios P.E.A").
O que vocês veem aí é um primor da escola que a gente no colégio estudou sob o rótulo de "naturalismo", aquela no qual o homem é um produto do meio e um resultado constante de seus baixos instintos, que podem ser identificados pela razão da ciência. Daí o destaque que fatores como a hereditariedade e a promiscuidade do meio circundante têm na psicologia e nas ações dos personagens.
O francês Émile Zola foi o principal expoente dessa escola com sua monumental saga da família Rougon-Macquart, um ciclo de 20 romances com protagonistas que se interligam por distantes ou próximos laços familiares. Os livros da série foram escritos entre 1871 e 1893 e incluem algumas das obras mais conhecidas de Zola, como A taberna (1876), Naná (1879), Germinal (1885) e este A Besta humana (1890) cuja capa escabrosa vocês podem ver ao lado.
Tá certo que a trama de A Besta Humana, que envolve loucura, assassinato, adultério, corrupção e vilania em fartas doses, já foi apontada como um exemplo maiúsculo de thriller literário antes mesmo que essa categoria existisse. O romance trata de um vicioso triângulo amoroso entre o brutal Roubaud, chefe da estação ferroviária de Le Havre, sua mulher Séverine e o maquinista Jacques Lantier — o elo com os demais livros da saga, já que Lantier é filho de Gervaise, personagem de A Taverna, irmão de Claude Lantier, de A Obra, e meio-irmão da Naná que dá título a outro romance da série.
Lantier testemunha um assassinato que pode ter sido cometido por Roubaud, e logo depois começa um caso descarado com Séverine. Tanto Lantier quanto sua prima, Flora, também personagem de destaque, sofrem de uma loucura hereditária, espécie de "maldição de família" que se transmite de geração em geração, e que explodirá em atos de violência e covardia desconcertantes.
Ainda assim, não tem motivo nenhum, além de pura e simples apelação, para essa capa bagaceira que vocês vêem aí ao lado, de uma edição da portuguesa Livros de Bolso Europa-América que eu comprei em um sebo em 1997. A edição é de 1976, e mostra que naqueles anos loucos a capa apelativa foi uma febre não apenas aqui na Butucúndia, mas lá na Terrinha também. Notem que a moça usa uma camisola de seda e empunha um revólver, quando o crime que Roubaud comete por ciúmes de Séverine é perpetrado com um punhal.
O que torna aqueles vagões que vocês veem ali no fundo a única coisa que realmente tem a ver com o livro.

Bendito o que semeia livros. Quase não tínhamos livros em casa. Deus o livro, livrai-nos do mal. Neste espaço, o editor de livros de Zero Hora, Carlos André Moreira, partilha com os leitores informações, comentários, curiosidades, dicas, surpresas, decepções, perguntas, dúvidas, impressões, indiferenças e todas as outras tantas sensações proporcionadas pelos livros e pela leitura, esses prazeres tão secretos que merecem ser compartilhados.

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